5ª Teológica


O tema pareceu ser uma unanimidade entre os leitores da primeira 5ª Teológica. É claro que por unanimidade, me refiro aos que deram opiniões sobre o tema a ser abordado na próxima (e atual) coluna. Ou seja, o Felipe Queres. Eis o seu comentário à última (e primeira) 5ª Teológica:

“Gostaria que a comissão da 5ª Teológica me ajudasse com uma dúvida recorrente. O que seria autoridade pastoral? O vocacionado ao ministério da palavra e do cuidado recebe de Deus uma responsabilidade maior entre os demais membros de sua congregação? E o seu valor entre os demais, o peso de sua palavra, ou sua visão sobre as coisas de Deus e do “mundo”, são especiais ou iguais a de qualquer outro? Ele deve ser obedecido ou tratado como igual? Pergunto porque quando olho a realidade vejo homens iguais, pretensamente especiais….Valeu, fiquem com Deus”

Dei uma lida em alguns textos e recorri também, é claro, à Bíblia. Vou tentar responder às perguntas que o Felipe colocou à luz do que outros pastores já disseram e à luz da Palavra de Deus. É claro que o julgamento final daquilo que vai ser a resposta tem uma carga do que eu penso, não há como evitar isso. Em relação ao que os outros pastores disseram sobre o assunto, deixo que os leitores julguem o que é certo ou errado, mas em relação à Bíblia, deixo claro que o que está escrito, eu tomo como verdade.

Na busca que fiz, encontrei algumas palavras bem interessantes. David A. Houston diz o seguinte: “Autoridade não é uma questão de controlar, manipular, coagir ou simplesmente dar ordens às pessoas. É assim que os gentios agem. Mas Jesus disse que não deveria ser assim entre nós, onde habita o doce e gentil Espírito de Deus. A preocupação de Jesus está em que a autoridade não seja usada em abuso ou com o propósito de angariar privilégios e benefícios para aqueles que têm a autoridade em suas mãos” (The Limits of Pastoral Authority)

T.C.Black escreveu em seu site algumas palavras muito interessantes a respeito de autoridade, tomando como base a primeira carta de Paulo a Timóteo. Diz o texto de 1º Timóteo 1:1-2: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus, pelo mandato de Deus, nosso Salvador; e de Cristo Jesus, nossa esperança, a Timóteo, verdadeiro filho na fé, graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.”

Black escreve o seguinte: “O efeito [do texto] é que nossa atenção é atraída não apenas à palavra “mandato” ou mesmo à substância do mandato – nossa atenção é atraída a quem deu o mandato. Por causa disso, eu diria que Paulo é um apóstolo não pelo fato de Deus ter assim mandado, mas pelo fato de Deus ter assim mandado [a questão final é quem deu a ordem, e não a ordem em si]. A autoridade de Deus fez de Paulo um apóstolo, portanto, rejeitar ou negligenciar Paulo ou Timóteo por esse fato é rejeitar a linhagem de autoridade que Deus estabeleceu.”

E prossegue:

“Uma referência sarcástica nos levaria a pensar que a rejeição da autoridade pastoral é algo como universal na Igreja – ao menos na Igreja Americana – hoje. A tarefa do pastor é treinar os santos para que estes atuem no ministério, e não realizar todo trabalho sozinho. A tarefa do pastor é educar, corrigir e expor as Escrituras. Mas pelo fato da autoridade ser negada aos pastores, eles acabam se retraindo, com medo de perder seus empregos se de fato fizerem suas obrigações.

A maioria das pessoas não se importa se os pastores ensinam teologia – se concordam com a teologia, é claro – mas uma correção bíblica está fora de questão [nos dias de hoje]. De fato, o próprio ato de corrigir é considerado, por vezes, fora dos limites”

Em Hebreus, capítulo 13, a partir do verso 7 até o final do livro, o autor diz que devemos nos lembrar de nossos guias, os quais nos pregaram a Palavra de Deus. Diz ainda para observarmos o fim de suas vidas, e como guardaram a fé. Claramente o autor do livro estava falando de um outro nível de guias, líderes e pastores, um nível que infelizmente não conhecemos hoje em dia. Não é difícil nos depararmos com a triste constatação de que quem nos guia, não é exemplo.

O autor escreve ainda no verso 17 de Hebreus 13: “obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isso com alegria e não gemendo; porque isso não aproveita a vós outros.” Ao comentar esta passagem, a Bíblia de Genebra diz o seguinte: “Líderes fiéis na Igreja são semelhantes a pastores fiéis (Jr 23:4, At 20:28, 1Pe 5:2-4) ou atalaias que dão o aviso de perigo à cidade (Ez 33:6). O cuidado dos líderes é profundo e genuíno porque eles foram designados por Deus, a quem devem prestar contas (conforme Hb 4:13). Todos sofrerão se resistirem ao seu ministério.”

Com esses dados em mente, tento agora responder às questões levantadas pelo Felipe.

P.: O que seria autoridade pastoral?
R.: É ser representante de Deus na terra, velando pela plena exposição de Sua Palavra, pelo pleno cuidado por Seu rebanho e acima de tudo, pelo pleno reflexo da Glória de Deus através da comunidade a qual Deus colocou sob seu cuidado.

P.: O vocacionado ao ministério da palavra e do cuidado recebe de Deus uma responsabilidade maior entre os demais membros de sua congregação?
R.:
Sim, creio que a Bíblia é clara, em especial no texto que lemos acima, de Hebreus 13:17. O texto diz claramente que os guias, os pastores, enfim, os vocacionados devem velar pelas almas que Deus dá, como quem presta contas. O pastor há de prestar contas das vidas que pastoreou.

P.: E o seu valor entre os demais, o peso de sua palavra, ou sua visão sobre as coisas de Deus e do “mundo”, são especiais ou iguais a de qualquer outro?
R.: Eu acho que depende. Quantos pastores conhecemos que são realmente vocacionados? E quantos são auto-proclamados pastores, bispos e até mesmo apóstolos? Creio que da mesma forma que o “Espírito testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16), quando há verdadeira autoridade nas palavras de um líder, reconhecemos essa autoridade e nos submetemos com alegria. Não que a pessoa seja mais especial, isso é algo complicado de se dizer, mas antes, que ela é um representante de Deus, e que por isso, Deus fala coisas ao seu coração que não falaria a outras pessoas. Isso a torna, de certa forma, diferente de nós. Não em questões meritórias – nada fizemos para merecer as coisas que Deus nos dá –, mas em questões de liderança.

R.: Ele deve ser obedecido ou tratado como igual?
P.:
“Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles”. Mas creio que a chave para a interpretação disso está no verso 7, quando o autor nos fala que devemos olhara para toda a vida deles. Um pastor vocacionado será obedecido em amor, por ter reconhecida em si
a autoridade dada por Deus. Um líder autoritário, como os auto-proclamados, serão obedecidos penosamente, pois chama para si uma autoridade que nunca foi deles.

John Piper enumerou alguns problemas com o pastorado que seriam as razões de, por vezes, as coisas darem errado, e acho que ele falou corretamente. Seriam eles: o prevalecer das falhas sexuais entre os pastores, os perigos dos defeitos doutrinários, a falha contrastada com o sucesso (muito comum na sociedade americana), falha no ouvir a Deus e, por último, falha em carregar o peso da Glória de Deus.

Ao terminar este texto, percebo que um vizinho meu está ouvindo a música Autor da Minha Fé, do Grupo Logos. E me lembrei do Pastor Xavier. E quando penso em Hebreus 13: 7-17, sou forçado a lembrar-me dele, pelas coisas das quais já falei. E dou graças a Deus por saber que ainda hoje há pastores aos quais vale a pena nos submetermos. Leia mais sobre o Xavier aqui, e no site de sua Igreja. Em sua última pastoral, ele faz referência a um dos melhores textos do Piper, chamado “Não Desperdice o seu Câncer” (link em inglês)

Graça e Paz,

Eduardo Mano

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