Você será esquecido. E faz bem saber disso.

Foto por Thibaut Tattevin em Pexels.com

Existe uma conta no X (prefiro dizer Twitter, mas aí está) que posta, diariamente, a frase “you will die someday” (você irá morrer um dia). É o memento mori diário. De certa forma, ajuda a colocar em perspectiva que nós não somos, ao contrário do que diz o mundo e suas mentiras, eternos. Ao menos não no sentido Highlander1 de ser eterno.

Mas algo que vem como subproduto de não sermos seres imbuídos da eternidade na carne, tal como somos, e que um dia iremos morrer (Hebreus 9.27), é que, eventualmente, seremos esquecidos. Nosso nome pode durar quatro, talvez cinco gerações. Depois, vem o esquecimento.

Pois convenhamos, não somos como Bach, ou Van Gogh, ou Rembrandt, ou Camões, ou Tchaikovysk. Ainda que criemos, ainda que escrevamos, ainda que deixemos obras memoráveis, elas talvez durem seis, oito gerações? Isso se algo do que fizermos for realmente excepcional! Senão, é bem provável que nossa produção seja esquecida, ou deixada de lado, no momento em que nossos nomes também forem esquecidos.

Claro, bem no futuro, alguém que pertença à nossa árvore genealógica ainda possa procurar saber algo a nosso respeito, por ter interesse em documentos, nacionalidades, essas coisas. Mas, além disso, provavelmente nada mais.

Claro, há um contexto em que seremos eternos, e esse contexto é o contexto cristão. Mas mesmo que ao fechar os olhos pela última vez nesta terra e ao abrirmos novamente para vermos o rosto de nosso amado Jesus passemos a viver na eternidade, na terra ainda seremos esquecidos algumas poucas décadas depois. E, para nós, neste texto, é no contexto da terra que interessa essa percepção de esquecimento e eternidade.

Você, eu, minha esposa e minha filha, todos nós um dia encerraremos nossa peregrinação neste mundo. Eu oro para que o Senhor apresse sua vida e venha logo, mas há a possibilidade de todos nós termos nosso encontro final com Cristo logo após a nossa morte. Pensar em nossa finitude nos dá alguma perspectiva. Na verdade, ela revela que aquilo que fazemos talvez não seja assim tão importante. Veja: se eu morrer hoje, alguém irá me substituir no trabalho. Alguém irá compor outras, e melhores, músicas. Alguém dará continuidade à obra missionária. E assim por diante. Neste sentido, aquilo que fazemos morre conosco.

Já aquilo que somos tem uma duração um pouco maior. O amor que minha esposa e minha filha sentem por mim certamente irá durar por bastante tempo. O impacto de algo que eu tenha composto, ou escrito, pregado, ou falado, talvez dure mais algum tempinho também… pois tudo isso deixou marcas nas pessoas. Assim também será com você.

Entretanto, tudo irá desaparecer um dia. Nossa memória será varrida da terra. E é bom que seja assim.

O mundo não precisa de mais um filme de natal em que o pai vira uma alma-penada e percebe que não deu importância às coisas certas, mas sim ao trabalho, ao dinheiro, ao status, e assim por diante. Os anos 90 produziram muitos deles e, justamente por ninguém ter aprendido nada com eles, retomar a fórmula é chover no molhado. Talvez a melhor forma de ensinar a realidade de darmos valor às coisas certas fosse um filme em que o pai (ou a mãe, vá lá) morra e nós vejamos a consequência de sua vida. Nós fossemos atingidos pela realidade do que acontece depois, e não eles, assistindo como espectadores desencarnados que, por algum feito médico, depois voltam à vida conscientes de seus erros para um final feliz e improvável.

De todas as coisas que temos ao nosso dispor no mundo de hoje, apenas uma é eterna em si. Não as árvores. Não as fontes de água potável do mundo. Não os prédios e as cidades, ou os monumentos. Mas sim a Palavra. Ela já durou mais que o povo saído do Egito, mais que os profetas, mais que os apóstolos. Mais que reis e rainhas, ditadores e governos. Mais que acordos, tratados e convenções. Mais que a minha e que a sua família. Ela irá durar mais que nossos nomes, mais que minhas músicas, mais que quaisquer lembranças. Os homens que dela esqueceram, também já foram esquecidos. Mas ela continua viva e eficaz.

Você irá morrer um dia, mas não, a Palavra. E é por isso que ela é ímpar. Não há nada mais importante a que possamos nos apegar. É dela que procede todo conhecimento e toda verdade. É ela que julga nosso coração e nossas intenções, pois “é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Timóteo 3.16). Ela é lâmpada para nossos pés, e luz para o caminho (Salmo 119.115).

Lembrar da nossa finitude nos ajuda a viver intencionalmente para o Senhor. Ter em mente que estamos fadados ao esquecimento nesta terra nos permite investir naquilo que somos para as pessoas ao nosso redor, e não naquilo que fazemos. E também permite que façamos o maior e melhor investimento que qualquer um pode fazer: plantar, nas gerações seguintes, a semente do nome de Jesus, e não a nossa. Pois uma vez que esta semente germinar, e crescer, florescer e der frutos – através do poder do Espírito –, embora em alguns anos nós sejamos esquecidos, o nome de Jesus prevalecerá.

Que a lembrança da evanescência de nosso nome não faça desfalecer nosso coração, mas sim, antes, nos leve a uma maior confiança no nome que é indelével: o de Jesus Cristo.

Eduardo Mano

  1. Highlander foi uma série de filmes (cinco no total, até agora), seriados, séries de animação e live-action, livros, quadrinhos, videogames e outras mídias que conta a história de guerreiros imortais que latam entre si até que fique apenas um. Sua versão original contou com Christopher Lambert, Sean Connery e trilha sonora da banda Queen. ↩︎

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