Meu avô, meu pai e eu

Post longo. Aguente firme.

Acho que já contei por aqui que meu avô era pastor. Se não contei, aí está: meu avô era pastor. Trabalhou em diversas igrejas auxiliando estas na transição de ministérios pastorais, às vezes ficando apenas por um, dois anos em cada uma. Infelizmente para mim, quando ele faleceu eu não tinha uma dimensão correta daquilo que ele representava para muita gente. Não tinha idéia de quantos livros ele tinha escrito. Não tinha idéia do quão querido ele era pelos seus ex-alunos de seminário (onde foi professor de hebraico e grego – encontre um seminarista que domina ambas e sinta-se sortudo, quanto mais alguém que esteja apto a ensinar ambas).  Mas acima de tudo isso, ele foi pai do meu pai.

Meu pai se chama Amurabe Farel Bernardes de Andrade (Amurabe vem do Código de Hamurabi, e Farel, do Reformador Wilhelm Farel). Não seguiu os pasos do pai, e é arquiteto. Acho que sou feliz por isso… Casou-se com minha mãe, Christina Borges Mano Bernardes de Andrade, médica, e tiveram três filhos: eu, Luciana e Juliana. A foto que ilustra o post é do casamento da Juliana. Ambos estão acostumados à grafia errada de seus nomes. Vivem na região serrana do Rio numa casa CHEIA de cachorros. 🙂

Eu os amo muito. Esse tipo de frase sempre merece um parágrafo à parte.

Meu pai começou a escrever textos de suas devocionais, e acabou me mostrando alguns deles. Como disse no twitter, e também disse para ele, os textos me falavam mais que muitas das pregações que havia ouvido nos últimos dois anos, e também me ensinam mais do que aprendi no Seminário. Sério, não tô exagerando. Não sei como eles soarão para outras pessoas que os lerem… talvez eles façam ainda mais sentido para vim por virem de quem vêm… mas como eu já disse a ele, acho que outras pessoas poderiam tirar proveito das devocionais.

Além do que, eu DUVIDO que alguma devocional que você tenha lido recentemente cite o profeta naum. 😉

Fiquem, portanto, com a última devocional que ele me mandou. Espero que abençoe vocês.

–xx–

É razoável esta tua ira?

3:10 Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho, e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez.
4:1 Mas isso desagradou extremamente a Jonas, e ele ficou irado.
4:2 E orou ao Senhor, e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso é que me apressei a fugir para Társis, pois eu sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.

A historia de Jonas está entre aquelas que nos acostumamos a ouvir desde o berçário das igrejas, isto é, aqueles que tivemos essa oportunidade de freqüentar uma igreja evangélica desde a mais tenra idade.

Li esse livro certamente mais vezes do que li a bíblia toda e ouvi varias meditações com ênfases na relação dos três dias que Jonas passou dentro do grande peixe e sua relação com a morte e ressurreição de Jesus, na oração de arrependimento de Jonas e na renovação de seus votos para com Deus.

Confesso que boa parte de minha vida me incomodou esse final meio “seco”, “incompleto” e “repentino” da historia. Fique muito tempo com a sensação de que faltava alguma coisa, mas, confesso que nunca me senti estimulado a ir mais fundo na historia.

Recentemente Deus me fez perceber mais uma perspectiva para essa narrativa. Fato já bastante sabido, Nínive era a capital da Assíria. Os assírios eram um povo inimigo, extremamente cruel e que foi usado por Deus para castigar o povo de Israel e de Judá. Sua crueldade era tal que, após conquistar e saquear uma cidade ateavam fogo e ainda cobriam a terra com sal para que ficasse improdutiva.

É exatamente para esse povo que Deus envia Jonas para pregar o arrependimento!

Jonas não é nada diferente dos cristãos de hoje. Na verdade, é um exemplo perfeito. Queremos ser mensageiros de Deus para aqueles que julgamos merecedores da salvação. Jonas fugiu de Deus indo em direção oposta exatamente por já ter julgado e condenado os ninivitas. Esse povo não tem perdão. Não existe possibilidade de arrependimento e conversão.

Quando penso nos “criminosos seriais”, nos estupradores, nos pedófilos, enfim, naqueles que aniquilam suas vitimas com requintes de crueldade e impossibilidade de defesa, sou levado a pensar que para esses a cadeia é premio. Acontece que eu não conheço os planos de Deus para essas pessoas. Pensando assim, deixando que esse pensamento inunde a minha mente e o meu coração, não consigo me colocar como veículo do amor e da graça de Deus. Não consigo permitir que Deus mostre o seu amor através de mim.

Foi assim com Jonas e é assim hoje. Não queremos levar uma mensagem de arrependimento e do amor de Deus porque o nosso coração está cheio de ódio e já sentenciou a morte espiritual para aqueles que julgamos monstros.
Após a mensagem de Jonas surtir o efeito pretendido por Deus, isto é, o arrependimento sincero do povo de Nínive, Jonas ora a Deus deixando bem claro que os atributos de Deus que pregamos e sabemos que existem para todo aquele que nele crê, exatamente esses atributos o desagradaram profundamente, levando-o a ira.

Jonas sabia que não seria a sua mensagem e sim o grande amor e a misericórdia de Deus levariam aquele povo cruel a se livrar de um grande castigo de Deus.

Talvez ele ficasse mais feliz se estivesse no lugar de Naum que cem anos depois profetizou a destruição total desse povo que, nessa oportunidade, não se arrependeu, ao contrario, achou que estava imune, pois não via qualquer risco entre os frágeis inimigos à sua volta.

Mas foi exatamente por conhecer o Deus da mensagem que ele sabia que o povo seria perdoado. Mas ele não queria que esse povo fosse perdoado!

Jonas mesmo foi objeto do perdão e de uma nova oportunidade quando arrependido orou a Deus após três dias no interior do grande peixe, mas foi incapaz de perceber que essa misericórdia de Deus precisava ser estendida aos ninivitas.

É razoável esta tua ira? Jonas ouviu esta pergunta de Deus por duas vezes, ambas descritas no capítulo 4. Será que essa pergunta continua ecoando hoje em nosso coração?

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5 thoughts on “Meu avô, meu pai e eu

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