Eu canto Keith Green

Keith Green está longe de ser uma unanimidade, creio, no cristianismo. Sua música e postura foram radicais e incomodaram muita gente. Na verdade, ainda incomodam. Queria aqui pensar em alguns aspectos de sua vida, ministério e música que são tão controversos hoje quanto foram no final da década de 70, durante seu curto (mas expressivo e importante) ministério.

Vida

Keith Green não era um cristão típico, daqueles que nós conhecemos. Sua criação e conversão se deram de forma pouco ortodoxa, e contribuíram de forma decisiva com a maneira pela qual ele e sua esposa viviam. Tendo se convertido em meio ao grande avivamento entre os jovens ocorrido na década de 70 nos Estados Unidos, conhecido como Movimento de Jesus. Neste tempo, Green era um músico que se empenhava em tocar na noite, em bares locais. Foi nesta época em que conheceu sua esposa, Melody, uma jovem hippie, como a maioria dos que ouviam sua música.

Após um namoro de aproximadamente um ano, Keith e Melody se casaram. Ambos estiveram envolvidos nos primeiros momentos da igreja Vineyard, antes mesmo dela ser estabelecida em definitivo com a liderança de John Wimber, igreja que também o ordenou ao ministério pastoral. Com isso, Keith começou a acrescentar ao seu repertório canções que falavam explicitamente de Jesus,  da realidade do inferno e da salvação que Cristo nos dá através de seu sangue. Esta atitude afastou grande parte de seu público nos bares onde tocava, ao mesmo tempo em que trouxe muitos jovens ao arrependimento e a largar os vícios.

Keith e Melody Green sempre mantiveram as portas de sua casa abertas a qualquer um que precisasse de um lugar para ficar. Diariamente, em sua sala de estar, jovens recém libertos das drogas, viajantes e sem-teto se juntavam para ouvir a ministração da Palavra de Deus, pequenos estudos e devocionais que Keith preparava. O grupo cresceu tanto que os Green adquiriram outras casas perto de onde moravam para acomodar a todos, e após alguns anos, compraram uma propriedade no Texas onde construíram dormitórios, uma sede, escritórios, e fundaram o “Last Days Ministries”. Todos se mudaram para lá e viveram juntos, em comunidade.

Keith e Melody escolheram acolher os rejeitados, pois conheciam suas lutas e dores. Muitos jovens passaram por tratamento para abandonar as drogas. Muitas mães solteiras encontraram ajuda e um teto para criar seus filhos com segurança. Muitos jovens perdidos e sem esperança encontraram um emprego, uma razão de vida, e a paz que Cristo garante aos seus.

Ministério

O ministério principal de Keith Green era a música, e secundariamente, o púlpito. Como a maioria dos ministros de música, Keith não raramente pregava durante suas apresentações. Ele tinha algum conhecimento teológico, formado pela mentoria do avivalista Leonard Ravenhill, e pela leitura de diversos autores, entre eles Charles Finney. Falaremos mais disso em seguida.

Durante seus poucos anos de ministério, Keith gravou 5 discos, sendo 3 de músicas cristãs voltadas ao evangelismo e exortação da igreja, um disco de “melhores” e um último, de adoração – um dos primeiros discos de adoração (nos moldes que conhecemos hoje em dia) gravados no mercado americano. Seus dois primeiros discos foram lançados pela Sparrow Records. O terceiro foi lançado de forma independente, e aqui é necessário dizer algumas palavras.

“So you wanna go back to Egypt” foi lançado por uma gravadora própria, chamada “Pretty Good Records”. Green pediu desligamento de sua gravadora, pois entendia que a música cristã não poderia ser vendida, mas sim dada de graça (ou adquirida pelo valor que o ouvinte pudesse pagar). A gravadora o liberou de forma amigável, entendendo que Keith deveria prosseguir com sua ideia. Esta forma de pensar acompanhou Keith pelo resto de seu ministério, até o final de sua vida. Não apenas isso, como ele não tocava em eventos pagos, apenas shows gratuitos. Ninguém deveria pagar para ouvir o Evangelho.

Traduzo a seguir um trecho de texto extraído de um folheto lançado em 1979, à época do disco “So you wanna go back to Egypt?”:

“Keith Green acabou de lançar um novo álbum, e ele não estará disponível em nenhuma livraria ou através de nenhum meio comercial. A gravadora Pretty Good Records recebeu o direito exclusivo de Keith para distribuir o álbum para qualquer um pela quantia que este puder pagar em troca.

A razão principal para não cobrarmos um valor fixo pelo álbum é simples: nós queremos que todos, não importa o quanto tenham (mesmo que não tenham nada), ouçam o ministério da nova vida em Jesus que flui deste álbum poderosamente ungido.

No Ministério Last Days, nós sempre nos importamos com os pobres. Até hoje, nós já mandamos mais de um milhão de artigos, milhares de fitas cassete, e a cada seis semanas nós enviamos uma revista, para quase 100.000 pessoas em todo o mundo, e nós nunca cobramos nada a nenhuma delas. Nós cremos que se o Senhor dá algo a você de graça, então você deve partilhar disto de graça (Mateus 10.8). O novo disco é nosso maior empreendimento até hoje, e nós não queremos que ninguém fique de fora!

Nós realmente gostaríamos de dividir este ministério musical com você, então se você quer uma cópia do novo disco de Keith, utiliza o cupom em anexo, e nos envie aquilo que você puder, da forma que Deus lhe dirigir.

Nós sabemos que há muita confiança envolvida nesta ação. Alguns nos avisaram que alguns utilizariam esta oportunidade para ‘ganhar um disco de graça’. Mas esperamos que você entenda que estamos fazendo isso não para que as pessoas consigam uma ‘pechincha’, mas porque é difícil para algumas pessoas conciliar o pagamento de 8 dólares por um disco cristão, quando eles nem mesmo podem comprar sapatos para seus filhos.”

Esta é uma atitude que causa calafrios nos executivos de gravadoras ainda hoje, e um caminho que poucos artistas querem trilhar… mas à luz da Palavra, não consigo ver outra alternativa. Tratarei disto em outro texto, em outro momento.

Música e Teologia

A música de Keith Green é seu maior legado. Mesmo no Brasil, há anos temos duas versões para “Oh Lord, You’re Beautiful” (Senhor, Formoso És, cantada por Marcos Góes e PG). Seus dois primeiros discos foram carregados de uma mensagem muito forte de juízo e exortação, mensagens proféticas (no sentido bíblico da palavra) para a igreja daquela época e, muito certamente, de hoje. Em seu terceiro disco, vemos como a Graça tomou um papel importante em sua vida, balanceando isso com a Justiça de Deus.

Keith escrevia sobre a urgência de ter sua vida resgatada e limpa por Cristo. Ele escrevia sobre a realidade do inferno e do diabo (de fato, três de suas músicas são escritas tendo o diabo como protagonista, todas excelentes – “Lies”, “No one believes in me anymore” e “Dear John Letter”), sobre a inconsistência na vida de muitos cristãos (“You love the world and you’re avoiding me”, uma das letras mais sinceras sobre o descaso que temos com as coisas de Deus que já ouvi), sobre a falta de ação da igreja em alcançar os perdidos (“Asleep in the light”, que me emociona cada vez que a ouço) e ainda diversos outros temas relacionados à Igreja, vida cristã, missões, ministério… cristianismo em geral.

Musicalmente, não há dúvidas que Keith Green era um gênio. Sua habilidade ao piano e seu registro vocal fizeram dele um artista conhecido e respeitado por toda a América do Norte e em todo o mundo, mesmo após a sua morte. Uma comparação poderia ser feita entre seu estilo e o do canto Elton John. Green cantava com entusiasmo e interpretava suas músicas de forma contagiante. A única explicação plausível para o fato de ele nunca ter encontrado sucesso no meio secular é a vontade de Deus e o ministério que Ele havia separado para Green e sua esposa.

Suas letras eram um reflexo de sua forma de pensar 8 ou 80, e também da teologia que lia. Um homem que teve grande influência em sua vida foi Leonard Ravenhill, e seu livro “Por que tarda o pleno avivamento”. Essa vivência que ambos tiveram influenciou bastante a mensagem de exortação de Green. Outro homem importante na vida de Green foi Loren Cunningham, fundador da YWAM (JOCUM), missão que Green abraçou e apoiou financeiramente. Missões também teve uma grande parte na teologia de Keith Green, e uma de suas músicas mais conhecidas, “Jesus Commands us to go” (lançada em um álbum póstumo) mostra como ele pensava missões (a letra diz, em português: “Jesus diz para irmos, deveria ser uma exceção se nós ficarmos”) Além dele, os livros de Charles Finney também tiveram grande influência.

Charles Finney foi um avivalista do século 19, com pensamentos e teologia muito peculiares (caso tenha interesse, aqui está um artigo onde boa parte de sua teologia é explicada). Para o nosso caso, o que podemos perceber de sua influência em Keith Green, foi a sistematização do avivamento (seguir passos específicos para chegar a um avivamento ou mover de Deus), como Finney fazia. Isso foi prejudicial (e vemos como fez mal a ele ao ler a biografia “No Compromise”, escrita por sua esposa) pois, muitas vezes, gerava nele uma expectativa por alcançar um objetivo, meramente por ter seguido os “passos” corretamente. Mas percebemos que, ao final de sua vida, as influências de Cunningham e Ravenhill foram ainda maiores (em especial por serem exemplos e mentores vivos, que o visitavam e oravam por sua vida).

Conclusão

Para mim, Keith Green foi um grande homem de Deus. Sua vida ainda me influencia (e, certamente, a de milhares de cristãos ao redor do mundo). Eu não tenho a menos dúvida de como Deus usou sua vida e ministério para fortalecer a vida de muitos cristãos em sua época, e para resgatar a vida de outras tantas pessoas. Seu amor pelo Senhor constrangeu e contagiou inúmeras pessoas, e suas músicas ainda falam. De fato, Leonard Ravenhill, ao falar no velório de Keith Green, disse que “ele, mesmo morto, ainda fala”.

Aquilo que está disponível de Keith Green para nós, se torna a forma de o conhecermos. Há vídeos, livros e músicas. Tive a oportunidade de ver o documentário sobre sua vida (disponível aqui em inglês), ler os livros “No Compromise” e “Se você ama o Senhor” e ouvir seus discos, e posso testemunhar do quanto Deus falou e fala através deste material. Excessos e erros, todos cometemos. A diferença é o quão prontos estamos a mudar nosso caminho.

Este texto está longe de fazer justiça à memória de nosso irmão Keith Green, mas espero trazer um pouco de informação àqueles que pouco sabem a respeito dele. Que Deus nos abençoe e nos leve a viver uma vida comprometida unicamente com a causa do Reino, e com Cristo.

Eduardo Mano

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19 thoughts on “Eu canto Keith Green

  1. Eduardo Mano vc estraçalhou produzindo uma espécie de “intro” à obra de Keith Green.

    Mais uma vez, bem escrito, claro e cumpre seu papel em me fazer correr
    atrás de saber mais e mais sobre Green, dando graças à Deus.
    Valeu mano!!!

  2. Lindo texto mano, não conhecia muito sobre o Keith Green, um cara que serve de inspiração e fala muito de como ser um cristão de fato! 😉

  3. Leitura muito agradável… Boas descrições e observações a respeito da vida e ministérios de Keith Green! O título deste texto tem correlação com uma música?

  4. Adorei vida e obras dele.Alguem rasgatado e buscando Paz e Amor na vida de pessoas que nao conheciam Cristo. Ah, que comovente! 

  5. Cara, Eu só ouvia falar Do Keith Green numa musica do Palavrantiga.
    Fiquei extremamente impressionado com o que li sobre ele, sobre as musicas e historia dele. Eduardo, Deus abençoe muito a sua vida cara, o teu ministério. E que o Espirito santo venha te manter cheio sempre 🙂 

  6. Obrigado Eduardo por tanta informação a respeito desse homem de Deus.Sou cantor cristão e necessito de uma referência como o Green.Na paz!

  7. Muito bom o texto! Eduardo, irmão, digo, mano! hehe

     O ministério clamor pelas nações tem algumas músicas do Keith e da Melody gravadas em português, segue aqui uma lista, pelo menos das que eu me lembro:
      Oh Lord, You’re Beautiful – Senhor tu és lindo (CD LIBERDADE)
      Asleep in the light – Adormecido na Luz (CD QUEM SE IMPORTA 1)
      The Sheep  and the goats – As Ovelhas e os bodes (CD QUE SE IMPORTA 1)
      Jesus Command us to go – Jesus nos manda ir (CD FILHO PRÓDIGO)
     e tem uma chamada: Abra os teus olhos para esse mundo (CD FILHO PRODIGO) que os créditos indicam ter como compositora Melody Green. Em fim, só pra constar… minha humilde contribuição! Eu canto Keith Green, você canta o que? – Palavrantiga hahahah!
    Deus abençoe!

  8. Pingback: Keith Quintas, 01 |

  9. Li esse texto hoje, 3 anos após ser postado, e terminei o texto em prantos, pq por mais que nos esforce só o que posso notar é o quão pequeno sou e o quão pouco tenho feito pra Deus. De fato o Keith foi muito usado por Deus e oro para sermos tão bem utilizados por Deus como nosso irmão foi.

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